A paulistana Anne Galante é formada em Estilo-Moda e, por não concordar com a forma de produção do ramo, criou sua marca focada em tricô e crochê artesanal, a Señorita Galante. Com suas peças gigantes de tricô, a artista propõe um contraponto à era em que tudo é “fast”. Enquanto ela tricota, o público interage assistindo a um movimento lento em que ponto a ponto a peça vai se revelando. A partir do sonho de não deixar essas técnicas caírem no esquecimento, a artista promove reflexões sobre consumo e produção consciente.

Anne Galante em seu ateliê mostrando o planejamento de sua instalação. Foto: Gabriel Sousa/Devir Produções

Anne tricota desde os seus 12 anos. Começou com os pontos básicos que sua mãe a ensinou e nunca mais parou. Seu sonho é não deixar essas técnicas morrerem jamais. Para ela, tricotar e crochetar são como tocar um novo instrumento ou falar uma nova língua: coisas que deveriam ser ensinadas na escola.

Por sempre gostar da estética do grafite, Anne desenvolveu seu projeto de crochê aplicado nas paredes, o Graficrochet, para poder participar do movimento. “Já que eu não sei desenhar, foi a forma que eu achei de tornar esse sonho possível”, brinca.

Anne Galante com sua equipe em seu ateliê produzindo as gotas da sua instalação. Foto: Gabriel Sousa/Devir Produções
Juntando as gotas de crochê no terraço do Nubank. Foto: Henrique Madeira

Anne conta que essa história do fazer gigante é algo novo. Ela começou aumentando as agulhas, depois os fios. E, se depender dela, vai ficar cada vez maior. Sua proposta é de “o pessoal ver essas técnicas artesanais em uma outra proporção, mas ter aquela lembrança da vovó, da narrativa que o tricô lembra. Só que de uma forma mais contemporânea, uma releitura dessas técnicas”, conta.

A primeira parte da instalação pronta para ser colocada na fachada. Foto: Henrique Madeira

Para produzir o tricô gigante, é preciso muito trabalho braçal. “A gente compra o rolo de tecido, corta ele a cada 30cm, costura ele formando uma capa e enche com fibra siliconada. Aí é um processo de encher linguiça mesmo”, explica Anne bem-humorada. Só o processo de produção do fio dura em torno de 15 dias.

Para a artista, o que é impressionante e realmente salta aos olhos de quem vê suas obras é o tamanho delas. “E não tem uma pessoa que não tenha aquela lembrança de alguém da família que faz crochê. Então tem essa memória da infância, esse conforto visual também”.

Jogando a primeira parte do crochê. Foto: Henrique Madeira

Esse projeto do Nu Festival surgiu como mais um sonho de Anne Galante. Ela sabia que queria fazer na rua, mas não sabia como e nem onde. Se fizesse um de seus tricôs gigantes e colocasse no meio da cidade, logo isso ficaria muito sujo e viraria lixo. A partir de uma antiga vontade de fazer uma empena, ela começou a procurar um material durável, que não desbotasse com o tempo e não laceasse. Assim, chegou ao plástico. Foram usados 1250kg de plástico, todo crochetado à mão – muitas mãos, diga-se de passagem. O conceito de simular a tinta escorrendo vem do seu projeto “nem todo splash é tinta”, que é uma brincadeira com o fato da artista não usar – e nem precisar de – tinta em seus murais.

Aplicando o crochê na fachada do Nubank. Foto: Instagrafite

E algo que Anne faz questão de ressaltar, uma vez que todos os seus projetos giram em torno do conceito de ser handmade e de incentivar o consumo consciente, é que todo esse plástico terá um destino depois que sair da fachada do Nubank. Nada vai para o lixo. Ele será todo destinado a uma ONG de mulheres que o reciclam.

Instalação do crochê pronta. Foto: Instagrafite