A artista urbana e muralista Gleo, nascida e criada em Cali, na Colômbia, é um dos nomes mais promissores e inovadores da nova cena latino-americana de arte pública. Com tinta látex, pincéis e rolos de pintura, e usando ainda referências pictóricas de animais e simbolismos espirituais, a artista pinta personagens vibrantes inspirados nas tradições e na cultura colombiana. As cenas místicas, coloridas e detalhadas de Gleo já chamam a atenção em diversas cidades ao redor do mundo.

A artista pinta há 10 anos, desde que é pequena, e conta que a arte sempre foi sua única opção. “Simplesmente me perguntei: no que sou boa para fazer a vida toda? E simplesmente disse que pintar é a única coisa que sei fazer bem. Sou muito desajeitada, e pintando também, mas pelo menos isso sei fazer melhor”, explica a artista bem-humorada.

As marcações da Gleo. Foto: Henrique Madeira

Gleo passou cinco anos esperando sua vez de pintar um grande mural. Sempre via seus amigos pintando e ficava na expectativa de ter o seu um dia. Mas, para ela, cada grande mural que veio depois disso, veio no tempo certo. “Aprendi com o tempo a ser um pouco mais metódica, que sou muito muito ruim fazendo quadriculados, que sou muito boa fazendo meus rabiscos; aprendi que os grandes murais não são a assinatura de um só artista, mas de toda uma produção. No fim, aprendi a trabalhar em equipe”.

O mural do Nu Festival foi o maior que ela já pintou. Antes, ela havia feito uma empena em um edifício de oito andares. E superar esse de agora vai ser difícil. Foram duas paredes em um mesmo prédio de onze andares. 40 metros de altura e 9 metros de largura.

Gleo comparando sua primeira marcação com as fotos de referência. Foto: Henrique Madeira

O processo criativo de Gleo é, normalmente, um pouco confuso para quem vê de fora. E não é só por causa dos símbolos e frases que ela escreve nas paredes para fazer suas marcações. O único esboço que ela tem antes de começar a produzir é o da situação que ela quer pintar. Toda a parte onírica e orgânica não tem rascunho. “Depois de ter a ideia, que nesse caso é o espelho, e de todo o processo do mural, vem a criação da máscara. E ela é feita no dia-a-dia, que estou vendo o mural todos os dias e vendo como o mural fala com a gente. A cidade e as pessoas que estão à nossa volta influenciam nisso e o mural vai se construindo”, explica.

Primeira camada de tinta. Foto: Henrique Madeira

Gleo conta que, normalmente, suas ideias partem dos personagens. Ela gosta de pintar pessoas locais e começar a partir daí. Quando não consegue por falta de tempo ou por precisar ir ao lugar com um projeto pré-estabelecido, lê muito sobre a cidade e tenta entender a situação deste local. Depois que já tem a ideia, o resto vai sendo construído no dia-a-dia. “Gosto muito de pensar nas cores que existem nos arredores, nas cores que faltam nos arredores. Me baseio muito também em flores que vou encontrando. Assim tento fazer com que cada mural tenha um pouquinho do que há em cada espaço”.

Gleo em ação. Foto: Henrique Madeira

O trabalho da artista é um processo evolutivo. Quando ela começou a pintar nas ruas, desenhava peixes com olhos amarelos. Porém, com o tempo, passou a se questionar sobre que a mensagem que queria passar com seus desenhos. Ela explica que, ao pintar na rua, é preciso ter a noção de que o espaço público é de todos. E isso implica em respeitar o próximo, o seu vizinho, o que é pintado na rua e o que não querem que seja pintado na rua. Porque, no fim, a cidade é uma grande rede de cimento que invade a vida das pessoas o tempo todo. E suas máscaras são como rituais, que convidam as pessoas a se conectarem com seus interiores e entre si também.

Os olhos amarelos, atualmente, são elementos fundamentais em seu trabalho até hoje. Passaram a representar o espaço de transe dos personagens, o infinito e o cosmos a partir da figura perfeita: o círculo.

Lado esquerdo quase pronto e lado direito ganhando adornos. Foto: Henrique Madeira

Suas inspirações partem da cultura popular latino-americana, que, para ela, consiste em uma maneira de resistir a esse individualismo urbano que nos é imposto. Ou seja, é o forte sentimento de comunidade que guia a sociedade latina. E a mulher retratada em seu novo trabalho para o Nu Festival reflete exatamente isso. É uma moça mexicana chamada Miranda, que tem uma irmã chamada Renata e que também pinta. Para Gleo, ela tem uma noção de América Latina que deveria ser a de todos os latinos. “Em todos os países da América Latina, nós não nos sentimos latinos, não nos sentimos unidos. E essas mulheres têm uma família muito unida, com muitos valores da cultura popular que eu falei, de comunidade. E eu queria trazer essa força que elas trazem consigo para cá”.

Detalhe do mural da Gleo com o Nubank ao fundo. Foto: Henrique Madeira

 

Mural da Gleo pronto. Foto: Instagrafite