Tainá Lima, mais conhecida como a grafiteira Criola, é de Belo Horizonte, Minas Gerais, e é formada em Design de Moda pela UFMG. A primeira porta-voz da nova geração de artistas urbanas brasileiras que utilizam o graffiti como instrumento de afirmação e empoderamento negro, Criola autodenomina-se uma “artivista”. Com inspirações como a diversidade cultural e a flora brasileira, ela busca a conexão com sua ancestralidade através de uma paleta de cores vibrante, com matrizes africanas.

A artista começou a pintar há 5 anos. Ela conta que sua trajetória na arte de rua é movida pela vontade de fazer a diferença e mostrar outros caminhos possíveis que não o cinza, o padrão ou as sinalizações das cidades. “Eu acho que pra mulher é muito mais difícil pintar, pelo lance da força física, do corpo da mulher na rua, que, normalmente, já é considerado propriedade pública, né? Então é mesmo essa energia da vontade e energia de querer modificar o ambiente que você vive”, ela explica. “Dizem sempre ‘entre nessa caixa, ande nessa faixa’. Não! Você pode andar fora da caixa, você pode andar fora da faixa. Você que cria isso”.

Essa foi a primeira empena que Criola pintou e, para ela, não foi tão difícil como ela imaginava. Mas a ajuda dos assistentes Enivo e Fabiano foi crucial para a mineira. “Posso dizer que eles me sustentaram bastante, me deram muita força. E eu acho que a união de nós 3 que concretizou esse mural”, ela conta.

Primeiro dia de pintura. Foto: Henrique Madeira

Com inspirações como a diversidade cultural e a flora brasileira, ela busca a conexão com sua ancestralidade através de uma paleta de cores vibrante. Suas referências não são externas, “não é algo que eu trago de fora pra dentro. É de dentro pra fora. Então, as minhas referências eu posso dizer que sou eu também, uma mulher preta brasileira”, afirma. E, para ela, é muito importante trazer esses elementos brasileiros em suas pinturas porque “nós buscamos muita coisa fora e não valorizamos as nossas referências. Muitas pessoas falam ‘mas isso é uma africana? Uma indígena? O que é?’, e é uma brasileira! Nós somos a junção de todas essas raízes”.

Mural da Criola em processo. Foto: Henrique Madeira

Criola acredita na arte como uma forma de cura, um instrumento de desbloqueio dos condicionamentos mentais. Com a arte, é possível refletir sobre sua essência e sobre quem realmente é. Para ela, esse seu novo mural na Cardeal Arcoverde pode instigar as pessoas que passam por lá, e estão sempre com pressa, a saírem um pouco dessa rotina e pararem um pouco de pensar no futuro para viver o presente. “Apreciar a arte, mesmo que seja por um segundo”, ela conclui.

Últimos detalhes das cabeças. Foto: Henrique Madeira

“Cada lugar é diferente um do outro. Cada rua é diferente uma da outra. Cada uma tem sua história. São as memórias que a rua já traz, independe da presença do grafite ou não. Quando a gente pinta, a gente entra em contato com essas memórias. Eu acho que a rua é um ser vivo”, conclui Criola.

Mural pronto. Foto: Instagrafite